Ana Elisa soma quase dois anos em suas duas passagens pela Bélgica. A mineira aprendeu a gostar do país e hoje se diz apaixonada pela vida na pequena cidade de Strijtem.






Ana Elisa Miranda
27 anos
Strijtem, Bélgica
Cidade Natal: Francisco Sá, Minas Gerais
Solteira

Você mora sozinha?
Moro com meu namorado.

Há quanto tempo está no país?
Eu morei na Bélgica por um ano, trabalhando como Au Pair. Fui ao Brasil por um tempo e agora estou de volta há 9 meses. 

Com o que você trabalhava no Brasil e qual o seu trabalho atual?
Eu me formei em Letras/Inglês e lecionei por mais ou menos quatro anos, inclusive nos curtos períodos em que estive de volta do exterior (também morei um tempo nos EUA). 
Atualmente estou sem emprego, pois meu pedido de visto está pendente e não tenho permissão para trabalhar no país ainda, mas faço trabalho voluntário numa associação em Bruxelas que oferece oficinas de língua e cultura para crianças de famílias imigrantes brasileiras e também escrevo no meu blog (Ana Elisa Miranda) e outros sites. 

O que te levou a sair do Brasil?
Eu sempre quis conhecer mais do mundo e ir além do que minha cidade tinha para oferecer. Eu queria ver lugares diferentes, conhecer pessoas, jeitos e costumes diferentes dos nossos. Ao aprender inglês essa vontade aumentou e ao terminar a faculdade tive a oportunidade de ir para os EUA. Depois de um ano e meio fora, foi difícil me readaptar ao Brasil, então vim morar na Bélgica por um tempo e foi onde conheci meu namorado. 

Porque escolheu a Bélgica?
A princípio eu queria vir para a Europa, mas não tinha um país específico em mente. Encontrei minha (agora ex) host family, nos demos bem e vim morar com eles. Nunca tinha sonhado em morar aqui e a princípio não me sentia em casa, mas aos poucos a Bélgica me ganhou e hoje amo viver nesse pequeno país tão curioso. Além do mais, hoje moro com meu namorado e estou realmente fazendo da Bélgica meu segundo lar. 

Conhece o idioma do país? Já conhecia quando se mudou?
A Bélgica possui três idiomas oficiais: francês, holandês e alemão. Eu moro em Flandres, onde a língua oficial é o holandês e quando eu me mudei não conhecia nada do idioma. Hoje consigo entender e falar um pouco, mas ainda não sou fluente. Os sotaques variam muito entre as regiões e a maior parte das pessoas fala inglês, o que têm dificultado minha aprendizagem. 
Nossa cidade também é muito próxima da capital Bruxelas, onde apesar de ser considerada bilíngue, a língua mais falada é o francês. Por ser mais semelhante ao português, é mais fácil de entender e falar.
O alemão só é falado em uma pequena parte na fronteira com a Alemanha.

Qual o custo de vida? É mais barato ou mais caro em relação à sua cidade natal?
Não sei dizer exatamente, mas a impressão é que aqui temos acesso a mais e melhores coisas: transporte, saúde, comida, roupas, eventos, viagens. O estilo e a qualidade de vida que temos aqui, não teríamos no Brasil com as mesmas condições financeiras. 

Qual a relação de infraestrutura da cidade você faz com sua cidade natal?
Como em todo lugar, há pontos positivos e negativos. Aqui as ruas e estradas não são esburacadas como na minha cidade natal; o transporte público é acessível e frequente, porém é normal haver greves e atrasos por causa da neve ou chuva forte. As escolas públicas são ótimas e não conheço ninguém que coloca os filhos em escolas particulares; onde eu moro as ruas são limpas e há muito verde, mas Bruxelas, por ser uma cidade grande é um pouco suja como em qualquer cidade desse porte. 

O que te chamou atenção na cultura do país?
A divisão Flandres/Valônia. Há uma rivalidade e um desentendimento político constante. A Bélgica chegou a ficar mais de um ano sem governo (primeiro-ministro). Cada região possui órgãos que regem a educação, os transportes, etc. Cada uma possui também seus canais de tv e rádio. São dois países em um. Acho que eles têm mais orgulho de dizer que são flamencos do que belgas.
Gosto muito do estilo de vida deles: apreciam o bom da vida, os (poucos) dias de sol, fazem esporte, são muito ativos, cozinham usando ingredientes frescos e saudáveis, viajam, curtem um barzinho ou café e também são muito família. 

Tem alguma história engraçada/inusitada que aconteceu com você no país?
Nada muito inusitado aconteceu ainda, mas sempre passo uns “apertos” com relação às línguas. 

O que do Brasil te faz mais falta? Em que momento você sente/sentiu mais saudade?
Sempre sinto saudade de duas coisas: pessoas que amo e comida. Saudade de estar em casa com meus pais e irmãos, comendo aquela comidinha caseira, rodeada de coisas e lugares familiares com os quais eu cresci e pessoas com quem compartilhei tantos momentos da minha vida. 
Quando você muda de país tudo é novo: as pessoas, seus arredores, a língua, a cultura, sua rotina. Às vezes se torna cansativo e dá saudade do conforto do lar. 

Do que você não sente falta no Brasil?
Da falta de segurança que afeta nossa qualidade de vida. Do medo constante de andar nas ruas sozinha. Da palhaçada que é nossa política. 

Você gosta da comida local? É muito diferente da brasileira?
Adoro a comida local! A Bélgica é conhecida pelas cervejas, batatas fritas e waffles, mas a culinária belga é muito mais rica que isso. No dia a dia comemos bastante verduras e batatas, porém os pratos mais tradicionais são o stoofvlees, que é uma carne cozida com cerveja e chega ao ponto de desfiar; mosselen, que são mexilhões acompanhados de batata frita; waterzooi, que é um ensopado de peixe, frango ou carne com legumes e outros. A cozinha belga é também muito influenciada por outros países: eles comem bastante espaguete à bolonhesa, verduras e arroz feitos ao jeito asiático e muito peixe. 

O que você costuma fazer nos momentos de folga? Quais os programas e lazeres existem para se fazer na cidade?
Depende do clima. No verão eles fazem muito o que chamam de “een terrasje doen”: sentar do lado de fora dos bares com os amigos. Como o verão dura pouco, eles aproveitam ao máximo a oportunidade de aproveitar o sol e os dias longos. Gostamos também de fazer passeios de bicicleta, ir aos festivais de verão que acontecem por toda parte, visitar parques e fazer pequenas viagens. No frio, gostamos de ir ao cinema, jantar com os amigos e ir aos bares locais. Até hoje eu procuro experimentar cervejas que nunca bebi e a Bélgica é o melhor lugar pra isso. 

Você encontrou algum problema para obtenção de documentos e visto?
Da primeira vez foi tudo rápido e claro - vim ser Au Pair e todo o processo foi feito por correio.
Desta vez, estou pedindo um visto de coabitação (residência baseada no relacionamento com um belga) e é bem chatinho e demorado. Várias visitas à prefeitura, espera de 6 meses pela resposta da Imigração e muita dificuldade em encontrar informações completas e claras sobre o que é preciso fazer.

O que você menos gosta na cidade, ou no país?
Eu sou bem adaptável e vejo sempre o lado bom dos lugares e pessoas. Porém, o que não consigo “gostar” é o clima. O verão é muito curto e o restante do ano é frio, cinza e chuvoso. Isso mexe muito com o humor das pessoas, que ficam mais desanimadas e ranzinzas. As línguas também são difíceis de aprender e exigidas na maior parte das vagas de emprego disponíveis. 

Qual a relação dos nativos com brasileiros? Você possui amigos belgas?
Os belgas são muito receptivos (falo pela minha experiência morando em Flandres). Tenho muitos amigos e eles são abertos, curiosos, gostam de saber sobre o Brasil, experimentar comidas e bebidas e até aprender um pouco de português. 

O que é falado sobre o Brasil na Bélgica?
Bom, como em vários países, o Brasil é visto como o destino turístico perfeito: clima bom, praias, paisagens lindas, alegria, festas. Por outro lado, as notícias das manifestações deste ano estavam sempre na mídia e tive muitas conversas tentando explicar a realidade brasileira, como grande parte da população vive, a política, a Copa do Mundo, etc. 

Gostam da música brasileira? Como é a repercussão das nossas músicas aí? 
Acho que a mesma em todos os cantos do mundo: Michel Teló e Gustavo Lima. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi essas músicas nos bares e tive que explicar o que elas querem dizer. Aos poucos vou tentando mostrar aos meus amigos que a música brasileira vai muito além disso. Já converti meu namorado a fã do Cazuza!

Quais são os principais ídolos atualmente no país?
Eles têm torcido muito pela seleção belga, ainda mais com a classificação para a Copa. 
Na música, o Stromae têm feito muito sucesso. Trixie Whitley, Arsenal e Gabriel Rios também. 

O que você costuma assistir na TV?
Não assisto muito, mas às vezes vejo as notícias, novelas e séries em holandês para acelerar minha aprendizagem. 

Você namora com um belga: Eles são mais bonitos que os brasileiros? rs Por quê?
Não é questão de ser brasileiro, belga, africano ou chinês. Existem pessoas diferentes e todo e qualquer canto do mundo e beleza é um conceito relativo. 

Você conheceu ou utilizou algum produto ou serviço que recomendaria a ser utilizado no Brasil?
Aqui existem máquinas de pão, frutas e até de fritas, onde você pode adquirir seu produto a qualquer hora, mesmo que o estabelecimento esteja fechado. 

Você gosta da música do país? Tem algum cantor/banda que recomenda?
Os belgas (que conheço) escutam muito mais música internacional, mas no rádio e tv eu escuto Stromae, Trixie Whitley, Arsenal e outros. 

Conhece alguma história ou lenda da cultura que pode contar?
Em Bruxelas existe a estátua de um menininho nu fazendo xixi. Ele se chama Manneken Pis e há várias lendas sobre ele. Uma delas, do século 14, diz que Bruxelas estava sob ataque e planejavam utilizar explosivos nas muralhas da cidade. Um menino chamado Julianske escutou esses planos, fez xixi no pavil e salvou a cidade! 

Pensa em voltar para o Brasil?
Não sou de fazer planos a longo prazo e aprendi que as coisas mudam com o tempo. No momento, não planejo voltar a morar no Brasil, pois estou começando a organizar e construir minha vida aqui e não me vejo vivendo lá.

Qual o seu sentimento pela Bélgica?
Já posso dizer que tenho muitas memórias boas neste país, muitos amigos e aventuras. Me sinto acolhida e me adaptei muito bem. Tenho muito carinho por essa terra. 

Se tivesse um filho, quais características ensinaria/gostaria que ele tivesse do jeito brasileiro e da maneira belga de ser?
O jeito mais caloroso de ser do brasileiro – abraçar, se abrir, fazer amizade fácil, rir e falar alto. Dos belgas eu ensinaria o respeito, a honestidade, o jeito correto de ser e o saber aproveitar as coisas boas e simples: o tempo livre, os dias de sol, uma boa comida caseira, um passeio de bicicleta.

Que conselhos você daria a quem pretende visitar ou até mesmo se mudar para o país?
A Bélgica é muito bem localizada – no centro da Europa. É muito fácil viajar de trem por aqui e em poucos dias pode-se conhecer as principais cidades: Bruxelas, Gent, Antuérpia, Namur, Liége. Pra quem gosta, temos a mais variada lista de cervejas, além das famosas trapistas; chocolates maravilhosos, cidadezinhas medievais, castelos, igrejas e monastérios lindos a serem visitados. 
Pra quem pensa em morar aqui, é bom saber o básico de francês e/ou holandês dependendo da região onde for morar. É bom estar preparado para um clima muito diferente do brasileiro: chuvoso, cinza e frio em boa parte do ano e para muita burocracia.